28 de dez de 2009

Taxista usa fusca há 30 anos

Aposentado dirige o mesmo carro há 30 anos e tem com ele uma relação de afeto.



Amaro Bernardo da Silva, o Lucas, e seu fusca laranja. O único na praça do Recife.

Quem costuma passar, durante a noite, em frente ao Hospital da Restauração (HR) já deve ter visto um carro que se destaca na fila de táxis. Se não pela cor, laranja, pelo modelo, um fusca. Some-se a isso o bom estado de conservação. O veículo está sempre brilhando. Seu dono, Amaro Bernardo da Silva, conhecido como Lucas, deixa a timidez de lado e fica todo prosa quando fala do seu automóvel. Para ele, aquele fusquinha é quase da família. Ele adora escutar elogios e pedidos para nunca "dar fim" ao laranjinha. E obedece. Não vende, não troca e não dá. Trata o carro como uma relíquia, jamais como uma lata velha. E é verdade. Há oito meses, o táxi de Lucas é o único do Recife nesse modelo e cor, obrigatória até 1985. "Antes tinha um colega que trabalhava na Encruzilhada, mas ele se aposentou. E eu realizei meu sonho, que era ser o único motorista de táxi a dirigir com um fusca", diz Lucas, todo orgulhoso. Fica mais ainda quando para gente na rua para tirar foto de seu "possante". "Isso aqui é uma relíquia no Recife, por isso atrai olhares", arremata. O carro é tratado como gente pelo taxista. Ele até fala do seu fusca como se estivesse falando de alguém. Só faltou mesmo apelidar o veículo. "Eu não coloquei nome nele, mas tenho muito zelo pelo meu carro". Lucas conta que seu amor pelo fusquinha é alimentado pela família e garante que ninguém tem ciúme desse cuidado todo. Nem mesmo sua esposa. "Todo mundo me apoia. Lá em casa, ninguém nunca me pediu para trocar de carro. Só alguns colegas que implicam, mas eu não ligo", conta. Lucas diz que os cuidados com seu táxi laranja fazem parte da diversão, por isso é tão apegado ao fusquinha e se nega a comprar um modelo novo. "Como me aposentei, minha rotina gira em torno dele. De manhã, conserto alguma coisa e, à noite, venho para cá (ponto de táxi em frente ao HR). O bom de ter carro velho é isso. Tem sempre alguma coisa para fazer", diz Lucas, que roda com o fusca há 30 anos. Ele, que já trabalhava como taxista, foi o segundo proprietário do veículo (fabricado em 1976). Primeiro ele "paquerou" com o tal fusca laranja e, só em 1979, reuniu suas economias e o comprou de um colega. Desde então, esse tem sido seu grande companheiro de vida. No comando do seu "carango", já passou por muitas aventuras. Por apuros também. "Quem roda à noite vê de tudo. Já levei muito paciente no carro. Também trouxe um homem que foi baleado em um assalto", lembra. Para evitar ser assaltado, Lucas toma algumas precauções. Não para o carro quando só tem dois homens chamando o táxi, em um lugar esquisito. A história mais pitoresca que aconteceu dentro do fusquinha foi um parto. "Uma grávida teve o neném aqui no carro. Ela estava no Alto José do Pinho e quando chegamos na Maternidade Barros Lima, o médico cortou o cordão umbilical ainda dentro do táxi", diz. A sua máquina tem os bancos de couro e um som. Se tudo der certo, vai realizar outro sonho: colocar ar-condicionado. Ele só pensa em incrementar o fusca. E diz até um dos segredos de mantê-lo tão conservado. "Eu lavo ele apenas com um pano úmido por fora, só para tirar a poeira", ensina. Lucas pretende rodar com o fusca até não poder mais dirigir. Não consegue se imaginar em outro táxi. "Carro novo não me enche a vista. Por esse aqui eu tenho muito amor. Me sinto muito bem rodando com ele pelo Recife", conta. Se depender de Lucas, o fusquinha laranja será sua companhia para toda a vida.

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