30 de jan de 2009

Uma crônica muito interessante

Não lhe impressiona os insetos que, uma vez de patas para cima, ficam assim à espera da morte ou de um dedo de Deus que os desvire? Ao motorista do Fusca azul, não; isso até aquela manhã de janeiro, quando ele e o Fusca voaram juntos pela primeira vez e se confidenciaram um segredo. O besouro azul e uma fita com os grandes sucessos do Raul Seixas foi tudo que sobrou da felicidade que em 1980 parecia ser para sempre.


Nos anos seguintes, porém, a mulher morreria do coração, as filhas se mudariam para o lado de lá do equador, os amigos teriam cada vez menos tempo para o que não fosse ganhar dinheiro e sua casa seria demolida para ceder lugar a mais uma linha de metrô. Único Fuscão no estacionamento do condomínio chique, os amigos gostavam de caçoar dele. “Não sei como não te expulsam. É um sacrilégio deixar essa velharia entre Audi, BMW, Mercedes. E você tem dinheiro para comprar um importado de primeira. Deixe de ser muquirana”. Não era por dinheiro o apego ao Fusca. O Azulão era sua certidão de existência, a prova do homem que havia vivido nele, das pessoas que havia amado, dos amanheceres que assistira nos bate-voltas à praia. Como poderia vender o carro que, entre um estouro e outro do escapamento, ainda conservava o eco dos risos das crianças nas brincadeiras para passar o tempo (se elas soubessem que o tempo passa deveras..) nas viagens? Como se desfazer do reflexo dos lábios de Lana no espelho improvisado no quebra-sol do passageiro?



O que não faz parte de nós não nos perturba

O único arrependimento foi não se lembrar desta frase de Hermann Hesse naquela manhã. Ele não a teria desperdiçado remoendo o ódio que sentira do Mercedes, sempre estacionado de forma a obrigá-lo a rebolar feito dançarino de funk ao sair e entrar no carro. Enquanto dirigia, pensava nas verdades que poderia dizer ao folgado do Mercedes e aos outros condôminos, mas desistiu. Estava velho demais para saber que tudo que criticamos nos outros não revela senão nossos próprios defeitos. Pensou em como, talvez, poderia ignorar as opiniões dele na reunião de condomínio. Também desistiu. A indiferença, quando não é sincera, revela ainda mais a presença de quem queremos negar. Precisava fazer algo definitivo. De repente, como acontecem mesmo os fatos que mudam o destino, o Fusca, lento demais, escapou para a pista da esquerda. O caminhão que vinha chutado atrás não conseguiu frear. Bateu tão forte no Azulão que ele voou como se tivesse ganhado asas. Caiu na grama, deu uma cambalhota, e despencou no rio. Lá de cima, os curiosos chegaram achar bonito aquilo que parecia uma joaninha debatendo-se toda azul na água. O motorista, que nunca havia desvirado um bichinho de pernas para o ar, teve vergonha de clamar por ajuda divina. Mas os curiosos, livres de julgamento, pediram socorro por ele.



Um homem e dois segredos

No pouco tempo que restava, o motorista se esqueceu do Mercedes. Olhou pela última vez no retrovisor. Saber o que ele tinha sido desde então era um labirinto de espelhos. Sentiu-se Alice no País das Maravilhas. Com a pancada na cabeça, percebeu – foi uma percepção quase de liberdade – que tudo que havia vivido não era senão sua própria luz e sombra. Não uma continuação dele, mas uma revelação do que dele se escondia para dentro. Seria assim para todos esse caminho para si? Ele disse ao Azulão: “vou contar a você maior segredo de minha vida, não posso morrer com isso: traí Lana uma vez, dentro de outro carro. Trai você também. Foi um equívoco do qual nunca me recuperei”. Talvez fosse o medo da morte, o delírio ou só as coisas como são. Certo é que o Azulão continuou a conversa: “sabe, tenho que confessar uma coisa também. Quando fui projetado, eu já era para ter carroceria monobloco, que começava a surgir nos anos 1930. Mas meu criador, Ferdinand Porsche, preferiu a construção de chassi e carroceria separados porque assim poderia ser colocada outra carroceria sobre o meu chassi. Foi assim que nasceu o jipe de guerra Volkswagen, o Kübelwagen. "O homem ficou surpreso com a confidência. Abraçou o volante emocionado. Era a primeira felicidade em muitos anos. A sirene do bombeiro foi chegando mais perto. As vozes, aumentando de volume. Escutou um homem pedindo para que ele erguesse o pino da porta ou abrisse os vidros. Em vez disso, o motorista agarrou-se mais forte ao volante, mergulhando a cabeça na água. Ele não iria sem o Azulão, jamais. Fixou o olhar mais uma vez na imagem turva do retrovisor, aquela fragilidade de quase quebrar reflexo. Força de quase quebrar reflexo. Soltou o ar dos pulmões e tentou buzinar mais uma vez para abrir os caminhos além, mas o Fusca também já estava em paz.

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