20 de jun de 2008

Antigo, mas nem tanto

Antigo, mas nem tanto
Produtos considerados ultrapassados ainda tem consumidores fiéis
A despeito de todo o avanço da tecnologia, produtos considerados ultrapassados ainda têm quem não os troque por nada. Oficinas de consertos acabam lucrando com essa fidelidade
Geórgea Choucair - Estado de Minas


Jackson Romanelli/EM/D.A Press / Euler Junior/EM/D.A Press

"É um carro amigo, que nunca me deixa na mão. Viajo com ele e não agarra no barro. A manutenção é fácil e barata" - Antônio Eustáquio

Atributos não faltam aos modernos equipamentos eletrônicos e automóveis dos dias de hoje: Os aparelhos celulares tiram fotos, recebem e-mails, consultam saldo em banco, têm rádio, despertador e até filmadora… As máquinas digitais produzem imagem instantâneas com agilidade, não usam processo químico na revelação e também fazem filmagens. Os MP3, MP4 e IPods, em tamanhos mínimos e cores versáteis, gravam centenas de músicas e vídeos. Os aparelhos de som fornecem espaço para quatro, cinco, seis CDs. O telefone ficou sem fio e mais leve. Os carros ganharam direção hidráulica, ar-condicionado e câmbio automático. E o computador…. interage com o mundo…

Difícil não aderir a tanto avanço e comodidade. Mas ainda há consumidores que dizem “não” a tudo isso e mantêm o hábito de usar aparelhos antigos: são vitrolas, máquinas de fotografia analógicas, máquinas de escrever, telefones de disco e o tradicional Fusca na garagem. Há ainda aqueles que dispensam os celulares e dispositivos portáteis com músicas. Os profissionais que trabalham com conserto desses equipamentos reclamam da queda de fregueses nos últimos anos. Mas os poucos que restaram no mercado têm clientela cativa e tentam inovar com novos serviços.

O técnico de informática Antônio Eustáquio de Souza está no seu quinto fusquinha. “É um carro amigo, que nunca me deixa na mão. O meu é de 1977. Viajo com ele e não agarra no barro. A manutenção é fácil e barata. Outro dia fui trocar o retrovisor e custou R$ 7”, diz. O carro é sempre encontrado com ofertas de compradores no retrovisor. “Quase todos os dias tem uma proposta. Mas, por enquanto, não quero vender, pois não me traz problemas. É fácil de manipular. Ensina o dono a ser mecânico”, afirma Souza.

A economia com o Fusca é outra vantagem apontada por Souza. “Fica mais barato do que andar de ônibus. Ele é mais econômico”, diz. Ele conta que teria condições de comprar outro carro, mas prefere manter o fusquinha. “Por segurança, prefiro não trocar. Na rua onde moro, já roubaram vários carros. Mas no meu nunca tocaram”, observa.
Jackson Romanelli/EM/D.A Press

"Só fotografo com filme. Em algumas situações, a qualidade da foto é melhor. E a imagem é primária, não tem muita fantasia" - Rodrigo Câmara

O escritor Manoel Gomes Júnior, de 84 anos, também poderia ter um computador. Mas prefere a máquina de escrever na hora de redigir seus livros e contos. “Não tenho necessidade de computador para sobreviver. Uso a máquina devagar e, quando erro, passo a borracha. Em alguns casos, como nas cartas, faço uns rascunhos”, diz. Manoel reclama, no entanto, da falta de profissionais para consertar a máquina. “Com a chegada do computador, eles desapareceram. Outro dia liguei para um e ele combinou que viria aqui em casa. Mas desapareceu. Isso faz um ano”, observa o escritor.

José Paulo Cordeiro é dono da Paulo Máquinas no Mercado Novo. Ele conserta máquina de escrever, de calcular e mimeógrafos. Começou a trabalhar nessa área em 1973. “O computador fez fechar muita oficina desse ramo. Aqui no mercado, eram cerca de 30. Só restou a minha loja”, diz Cordeiro. Hoje, ele conserta de cinco a oito máquinas de escrever por mês. “Já cheguei a consertar de 60 a 70”, diz. Sem concorrência, ainda consegue manter as portas abertas. “Vou aposentar com esse serviço. Acho que vou ter mercado para os próximos 10 anos”, afirma. Ele também vende máquinas usadas. A manual sai por cerca de R$ 150 e a eletrônica, por R$ 250. O conserto vai de R$ 60 a R$ 70. “A nova não é mais encontrada para vender”, observa.

O fotógrafo e publicitário Rodrigo Câmara é outro consumidor que vai na contramão da tecnologia. “Adoro as antigüidades modernas”, afirma. Em seu escritório há um arsenal de produtos antigos: telefone de disco, máquina de escrever, vitrola e máquina fotográfica analógica. “Só fotografo com filme. Em algumas situações, a qualidade da foto é melhor. E a imagem é primária, não tem muita fantasia. Trabalho mais a fotografia como arte e conceito do que como forma de registro”, diz. No seu estúdio, o telefone é de disco. “O toque é mais charmoso, combina comigo e remete à minha infância”, diz.

A revelação de filmes responde hoje por cerca de 30% a 40% dos negócios do Centro Fotográfico, no Centro da capital. “Nas cidades do interior, esse índice é maior, pois as pessoas têm menos máquina digital”, observa Eduardo Rodrigues, dono da loja. Segundo ele, a máquina digital levou à queda de revelação de fotos. “Por outro lado, o número de fotos pedidas por quem faz a impressão é maior. Antes, a pessoa saía de férias com dois ou três filmes e pronto. Hoje, com a máquina digital, fazem mais fotos”, diz Rodrigues. Ele reconhece, no entanto, que a venda de filmes caiu cerca de 70% nos últimos anos. A loja só vende máquinas digitais. As analógicas disponíveis são usadas.

Renato Trindade é um admirador de músicas. Mas o aparelho de som com CD só tem no carro. Em casa, ouve suas músicas em uma radiola de 1973. “Não consigo explicar o motivo. Não sei se parei no tempo ou é mania de gente velha”, brinca. Ele reconhece que não é possível ouvir todas as músicas de que gosta nos discos de vinil, que ocupam mais espaço nos armários da casa. “Mas o que não dá para ouvir na radiola, ouço no carro. Não tem problema”, diz. Ele tem planos de passar as músicas dos discos de vinil para o CD. “Mas não vou me desfazer do vinil.”

Liu Leite é restaurador de discos de vinil e de gravadores de rolo. Apesar de a vitrola ser usada por poucos consumidores, ele não tem do que reclamar quando o assunto é clientela. “São mais de 3 mil clientes em BH e no exterior. Nem todos os discos de vinil foram repassados para CD e nem todas as músicas foram para vinil. As pessoas muitas vezes têm dificuldade para encontrar músicas que marcaram épocas”, diz.

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