19 de fev de 2008

Prazer ao alcance de todos - 4 Rodas


Prazer ao alcance de todos
Ter um antigo pode não ser tão caro quanto você pensa. Aqui, mostramos o que fazer (e o que não fazer) antes de comprar seu primeiro "velhinho"
O senhor de cabelos grisalhos e passos curtos não esconde um olhar de surpresa ao caminhar por entre os carros antigos do encontro que se realiza na Estação da Luz, no Centro de São Paulo. Quase quatro décadas se passaram e ele se vê diante de um DKW Belcar 1963, novo em folha. - Posso sentar? - pergunta para o dono do carro.
- Por favor.
- Lembro-me do dia em que tirei um igual a este na antiga Vemag. Ele não mudou nada, mesmo depois de 40 anos - diz o senhor, que, em seguida, levanta-se e continua o passeio com aquela sensação de que o tempo passou apenas para ele.
Cenas como essa são comuns em vários encontros de carros antigos pelo Brasil afora. Talvez seja essa a missão de colecionadores que se dedicam anos a fio a preservar a história de automóveis que marcaram época: fazer com que o tempo seja impiedoso apenas com os homens, que envelhecem vendo seus carros cada vez mais reluzentes e fiéis ao dia em que saíram da fábrica. "Resgatar a lembrança de um carro 40 anos depois é uma satisfação que não tem preço", diz Ronaldo Pereira da Silva, 35 anos, dono do DKW 1963 azul que emocionou aquele senhor no Centro de São Paulo. "Ele não foi o primeiro. Muitos contam que o carro, de tão fiel à época, lembra o pai já falecido ou os dias em que eles próprios iam para a escola ou viajavam no banco de trás de um modelo idêntico."
Em geral, as pessoas argumentam que ter carros antigos é tarefa para um grupo de excêntricos e endinheirados. Uma "satisfação que não tem preço", apenas para quem pode pagar caro para preservar a história dos carrões de décadas passadas. Estarão certos? "Em parte, sim, só que o mais importante é realmente gostar de automóveis. Mais que dinheiro, dedicar seu tempo para conhecê-los e preservá-los", diz Henrique Erwenne, 64 anos, presidente do Fusca Clube e do Karmann-Ghia Club. "Não precisa ser rico para comprar o primeiro antigo e tomar gosto pelo ramo."
Como, porém, se aproximar desse mundo à parte, formado pelos colecionadores de antigos? O que fazer primeiro?
A quem procurar? Como evitar o desperdício de dinheiro por pura falta de informação? QUATRO RODAS preparou este roteiro de cuidados e dicas para quem pretende embarcar na aventura de preservar a história de um carro. E, de repente, em uma noite de encontro de carros antigos como a que acontece semanalmente no Sambódromo, em São Paulo, viver uma dessas cenas.
Paciência na hora da escolha - "Antes de tudo, não se deve ter pressa", diz Henrique Erwenne. "Seja paciente para não tomar atitudes precipitadas." O passo seguinte é descobrir o modelo ideal. O leque de opções é grande: americanos, nacionais, europeus; esportivos ou sedãs; ícones das décadas de 20, 30, 40, 50, 60 e 70. Por onde começar? "Escolha o carro que tenha algum apelo emocional", afirma Richard Flynn, colecionador e restaurador paulista. O apelo afetivo é importante para que o "colecionador de primeira viagem" não desista diante do primeiro
contratempo. "Se não há identificação com o carro, chega-se à conclusão de que 'esse negócio não é para mim'", diz Flynn.
Foi o gosto pela efervescência da década de 50 que fez o comerciante Romeu Nardini, de 55 anos, escolher o antigo que queria comprar há seis anos. "Sempre gostei da música, do cinema e dos carros daquela época", diz Nardini. O inglês MG TD 1952 era seu sonho de consumo. Sem dinheiro para o original, optou pelo MP Lafer 1977, modelo nacional inspirado no carro inglês e que foi produzido na década de 70, comprado por apenas R$ 5 000. O Lafer vermelho precisou de nove meses de restauração, que custou cerca de R$ 12 000.
"O mais fácil é começar com um modelo brasileiro", diz Erwenne. "Com certeza, algum nacional marcou sua vida, seja um Fusca, Corcel ou DKW." O dentista Mário Pacheco Neto, 33 anos, fez a mesma opção quando decidiu comprar o seu segundo antigo: um Karmann-Ghia conversível, modelo que sempre atraiu o então jovem estudante de 19 anos. "O meu caminho foi começar com a linha Volkswagen porque a mecânica é barata e fácil de encontrar", diz. "Tenho amigos que compraram Mercedes-Benz, mas as peças são muito caras, apesar da facilidade de
importação que temos hoje."
Conheça melhor o carro - Mas apenas o interesse pelos antigos e a afinidade por um modelo não bastam. É preciso conhecer bem o carro eleito antes de comprá-lo. Livros sobre o tema, revistas especializadas que testaram o carro na época, manual do proprietário e catálogos de peças e concessionárias são o melhor caminho para se tornar mais íntimo da futura paixão. De acordo com Henrique Erwenne, a literatura é a fonte mais segura para não errar na hora de procurar o primeiro antigo. Recomenda-se que o interessado também procure o automóvel clube correspondente ao modelo.
O Fusca Clube, por exemplo, orienta seus sócios na escolha do melhor carro. "Muitas vezes a pessoa tem dúvidas se está diante de um bom negócio e nós ajudamos", diz Erwenne. "E não é preciso ter um Fusca para fazer parte do clube. Basta gostar do modelo e pagar a mensalidade de R$ 10." Os encontros com outros colecionadores também ajudam a entender como é, na prática, manter o antigo que se deseja comprar."
Saiba onde e como procurar - Não basta ir a uma loja de antigos e fechar o negócio. O ideal é buscar um carro muito próximo ao original da época e bem-conservado, o que reduz os custos depois da compra. Mas até encontrá-lo passa-se um tempo que, em muitos casos, pode durar anos. "Não adianta decidir por um carro hoje e querer tê-lo na garagem amanhã", diz Erwenne.
"Vale a pena garimpar e, de repente, encontrar o modelo na cor que você procura, único dono, pouco rodado e escondido no fundo do quintal em uma cidadezinha do interior." Depois do Karmann-Ghia e do Fusca, o dentista Mário Pacheco Neto soube esperar até o início deste ano para encontrar o SP2 1973 que procurava. Pela internet, localizou o carro em Brasília, único dono, original de fábrica. "Ele é único, impecável", diz Pacheco. "Tem de esperar aparecer. Não se procura um antigo da mesma maneira que se compra um zero Cuidados na avaliação - Encontrado o carro, é preciso tomar uma série de cuidados de avaliação, começando pela
documentação. Mário Pacheco levanta uma dúvida que todos deveriam ter: imagine se, após a compra e o início da restauração, se descobre que o número do chassi foi alterado? "Seria dinheiro jogado fora", diz ele.
Além da documentação, o comprador deve verificar tudo o que deixou de ser original de fábrica. "Só o custo de tapeçaria pode superar, facilmente, o valor pago pelo carro", afirma Richard Flyn. Deve-se olhar, ainda, o alinhamento do veículo e descobrir se já foi batido. A parte mecânica também merece atenção, mas é a menos relevante porque a manutenção quase sempre é mais rápida e barata.
Outra dica é não esquecer de pechinchar antes de comprar. O jeitinho brasileiro aparece na hora de negociar com o vendedor, principalmente se o carro pertencer a quem não é do ramo. "Quando o assunto é dinheiro, eu não estou comprando um carro antigo, mas, sim, um velho, que não serve para mais nada", diz Erwenne. "O dono pede cinco mil e eu ofereço dois." A saída é disfarçar o interesse e depreciar o velhinho: tem estepe, calotas e estofamento originais, manual do proprietário, nota fiscal ou é pouco rodado? Não. Então, vale apenas os dois mil, mesmo. Se,
por um lado, vale a pena negociar diretamente com o proprietário de raridades que estão mofando na garagem, por outro é preciso ter cuidado com lojas especializadas em carros antigos. "Muitos comerciantes dão apenas uma ajeitada na pintura e vendem como carro restaurado", diz Richard Flynn.
Para quem quer investir na história de algum carro, o preço do nacional respeita o tamanho do bolso do interessado.
Quem já quer um carro pronto e impecável pode comprar um DKW Belcar do início dos anos 60, totalmente original, por até R$ 20 000. Outra opção é comprar um Fusca da mesma época. Por outro lado, quem procura apenas uma raridade para restaurar pode encontrar bons carros por até R$ 5 000. "Nesse caso, no entanto, é preciso avaliar antes o quanto será necessário gastar para deixá-lo original e fiel à fábrica", diz Erwenne. "Sempre sem perder a noção de que esse mesmo carro, depois de restaurado, tem um valor aproximado no mercado."
Depois de seguir todas essas dicas, você poderá, enfim, se considerar apto a adquirir o primeiro ve-lhinho. É só fazer as contas, avaliar se o investimento vale a pena e entrar para a lista dos amantes de carros antigos que decidem sair do anonimato. Contas à parte, o colecionador estará sempre sujeito a um risco: ser abordado por lembranças do passado ou ter a sensação de dirigir em plena década de 60, mesmo quando o cenário são as movimentadas avenidas das metrópoles do século 21.
Para cada automóvel, um tipo de dono - Mesmo tomando uma série de cuidados em relação ao carro, o interessado em adquirir o primeiro antigo precisa avaliar, também, qual o seu perfil:
Acomodado: Não tem tempo nem paciência para se dedicar à restauração e, por isso, está disposto a pagar mais caro. Por isso, deve procurar um carro que não necessite de maiores reparos. O melhor é ir atrás de colecionadores da marca que queiram se desfazer de uma raridade restaurada ou original. "Hoje é mais fácil encontrar um carro pronto, com poucos detalhes, do que fazer uma restauração, que pode custar caro", diz Pacheco. Ele se valeu desse
argumento quando saiu à procura do seu SP2, encontrado nas mãos de um colecionador de Brasília.
Fuçador: Perfil mais comum entre os proprietários. Tem paciência para encontrar um bom carro e gosta de acompanhar o processo de restauração, porém sem colocar a mão na massa. Deve procurar o melhor carro pelo menor preço e menores perspectivas de custo de recuperação, mesmo sabendo que demorará para tê-lo pronto em mãos. Cerca-se de oficinas especializadas, faz os reparos de acordo com o tempo necessário para encontrar as peças originais e respeita seu bolso. O roteiro de compras de Henrique Erwenne retrata bem o pragmatismo da maioria dos
colecionadores: "Eu escolho o carro, levanto a documentação e fecho negócio. Depois, lavo bem e troco todos os óleos. Uso por uma semana e anoto todos os defeitos. Por fim, levo ao mecânico e digo: Corrija isso e mais o que você encontrar de irregular". Antes de levá-lo à oficina, porém, ele mesmo tira frisos, lanternas, estepe e avalia quais peças precisam ser trocadas. Enquanto a mecânica, funilaria e pintura são tocadas na oficina, Erwenne sai à caça dos acessórios que deixarão o carro original.
Mão-na-graxa: Não são poucos os que gostam de ir à luta. O prazer é montar e desmontar o próprio carro. Para quem faz parte desse perfil, as recomendações para a escolha do carro são as mesmas, porém é o próprio dono quem vai se trancar em sua garagem e percorrer as etapas de restauração. "Conheço colecionadores que fizeram curso de pintura só para cuidar do próprio carro", diz Erwenne. "Na verdade, pesa muito o tamanho da paixão."

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